sexta-feira, 28 de setembro de 2007

MISSÃO



"A Missão está ainda no começo", afirma João Paulo II, contemplando o conjunto da humanidade. E passaram-se 15 anos desde esse grito do papa. Hoje a situação é muito mais complexa, de maneira que podemos dizer que a Missão "ad gentes", em muitas ocasiões, a encontramos na porta de casa.

Missão "ad gentes" é traduzida como Missão "além-fronteiras". Ir mais para lá, sair ao encontro de outros povos e de outras situações que não estão perto do normal das nossas vidas, muitas vezes acomodadas num cristianismo fácil e formalista. Mudou o conceito geográfico como elemento constituinte da Missão, mesmo se ela implica muitas vezes numa geografia longe dos nossos lugares comuns, onde Cristo não é conhecido.

Uma das definições mais belas da Missão "ad gentes" que sempre me inspirou para explicar brevemente o que é a Missão, é que ela se encontra:
– na fronteira da fé: os missionários devem estar onde os riscos são maiores e a possibilidade de experimentar, de ser criativos, como criativos são os que moram nas "fronteiras" geográficas ou sociológicas;
– na periferia da fé: os missionários não devem estar no centro do poder, mas onde reinam a impotência, as muitas pobrezas que se encontram nas "periferias";
– no deserto da fé: os missionários devem ir aonde não vai ninguém, aonde não existe ninguém como presença ou vida de Igreja.

“O missionário é o homem das bem-aventuranças. Na verdade, no 'discurso apostólico' (cf. Mt 10), Jesus dá instruções aos doze, antes de os enviar a evangelizar, indicando-lhes os caminhos da Missão: pobreza, humildade, desejo de justiça e paz, aceitação do sofrimento e perseguição e caridade, que são precisamente as bem-aventuranças concretizadas na vida apostólica (Mt 5,1-12). Vivendo as bem-aventuranças, o missionário experimenta e demonstra concretamente que o Reino de Deus já chegou, e ele já o acolheu. A característica de qualquer vida missionária autêntica é a alegria interior que vem da fé. Num mundo angustiado e oprimido por tantos problemas, que tende ao pessimismo, o proclamador da ‘Boa Nova’ deve ser um homem que encontrou, em Cristo, a verdadeira esperança” (RM 91).

Tantos missionários de hoje querem, por meio do Evangelho, defender a dignidade e a integridade das pessoas e dos povos, as culturas e sistemas de vida, liberando-os do imperialismo econômico, político, militar e cultural do Ocidente. A Igreja será instrumento e sinal de salvação para todos estes povos à medida que se comprometer com estes desafios.

O anúncio tem a prioridade permanente na Missão, da proclamação clara da vida e da obra de Jesus e deste compromisso a Igreja não pode esquivar-se. O primeiro anúncio tem um papel central e insubstituível na Missão "ad gentes". Onde o anúncio ainda não chegou, a Igreja deve estar como "com dores de parto" até alcançar a todos.

A Missão e o hoje de Deus

As rápidas transformações sociais, econômicas e políticas criam situações novas que penetram na Missão "ad gentes". "Fui enviado para evangelizar os pobres", proclamou Jesus na sinagoga de Nazaré. A nossa sociedade globalizada, neoliberal e capitalista deixa à beira do caminho tantas pessoas que esperam uma "boa e nova notícia".

Enumeramos algumas que entram perfeitamente dentro das prioridades missionárias da Igreja:
– as minorias étnicas sem os próprios direitos reconhecidos; pensemos no nosso Brasil, o mundo indígena e afro-descendentes;
– as minorias dos trabalhadores rurais em permanente situação de injustiça institucionalizada;
– os sem-terra e sem-água que habitam os nossos sertões;
– os meninos de rua, as mulheres marginalizadas e crianças exploradas pelo trabalho infantil ou pelo comércio sexual;
– os refugiados que as guerras ou ódios tribais criam;
– os milhões de migrantes à procura de vida melhor;
– os portadores do vírus HIV e outras situações que margeiam nossa sociedade.

Tudo o que é exclusão, marginalização e esquecimento faz parte prioritária da Missão da Igreja. Pensemos em tantos "porões" humanos que existem nas nossas sociedades de bem-estar e de injustiça institucionalizada. Quem, perante todas estas situações responde com amor livre e libertador, torna-se Evangelho vivo, Palavra escrita pelo Espírito, não em tábuas de pedra, mas na carne dos seres humanos (cf. 2Cor 3,3).

Na encíclica A Missão do Redentor o Papa João Paulo II fala de "mundos e fenômenos sociais novos" e "áreas culturais ou modernos areópagos", que continuam válidos na atividade missionária.

“Ao anunciar Cristo aos não-cristãos, o missionário está convencido de que existe já, nas pessoas e nos povos, pela ação do Espírito, uma ânsia – mesmo se inconsciente – de conhecer a verdade acerca de Deus, do homem, do caminho que conduz à libertação do pecado e da morte. O entusiasmo posto no anúncio de Cristo deriva da convicção de responder a tal ânsia, pelo que o missionário não perde a coragem nem desiste do seu testemunho, mesmo quando é chamado a manifestar a sua fé num ambiente hostil ou indiferente. Ele sabe que o Espírito do Pai fala nele (cf. Mt 10,17-20; Lc 12,11-12), podendo repetir com os apóstolos: ‘Nós somos testemunhas destas coisas, juntamente com o Espírito Santo’ (At 5,32). Está ciente de que não anuncia uma verdade humana, mas ‘a Palavra de Deus’, dotada de intrínseca e misteriosa força” (cf. Rm 1,16)” (RM 44).

O verdadeiro missionário é o santo

Esta afirmação do Papa João Paulo II refere-se ao tema da Missão "ad gentes", porque ela exige missionários e missionárias santos, fortes, radicais. Uma percepção verdadeira da Missão passa pela redescoberta da escuta da Palavra de Deus. Uma imagem verdadeira da Missão passa por uma necessária e permanente reforma da Igreja, que seja também auto-reforma de cada uma das nossas comunidades e de cada um de nós.
A Missão hoje é, antes de tudo, uma exigência de radicalidade evangélica, viver o Evangelho perante o mundo e contra o espírito do mundo. Se isto acontecer mesmo, só em pequenas, pobres e dispersas comunidades no mundo, a Igreja retomará o entusiasmo e a expansão dos primeiros séculos. Julgando tantos sinais, que só quem tem fé pode ver, isto está acontecendo.

Terminamos com uma oração missionária, do século 14:"Cristo não tem mãos, somente as nossas mãos para realizar o seu trabalho, hoje. Cristo não tem pés, tem somente os nossos pés para ir ao encontro dos homens, hoje. Cristo não tem lábios, tem somente os nossos lábios para anunciar o seu Evangelho, hoje. Nós somos a única Bíblia: que todas as pessoas ainda podem ler! Nós, o último apelo de Deus, escrito em palavras e em obras".

Pe. Ramón Cazallas Serrano
Missionário e diretor do Instituto Superior de Teologia
e Pastoral de Bonfim, BA (Istepab)

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