quarta-feira, 24 de outubro de 2007

ABRAÃO

Introdução:

Deus esteve sempre presente em toda a história do homem. Após a confusão das línguas e a dispersão dos povos, ocorridas devido à soberba dos homens que presidiu à construção da Torre de Babel, Deus resolveu escolher para Si um povo destinado a conservar o verdadeiro culto, e a prestar-Lhe continuamente as honras que Lhe são devidas. O Patriarca Abraão foi eleito pelo Criador para ser o chefe desse povo, devendo sua admirável fé ser levada até as últimas conseqüências e sua descendência numerosa “como as estrelas do Céu”.

Escolha de Abraão

O nome de Abrão é equivalente a Abiram significa “pai excelso”. Que será mais tarde Abraão “pai comum de uma multidão de povos” (cf. 17,5).

Na cidade de Ur, vivia Taré, homem temente a Deus e que observava suas leis, com seus filhos Abrão, Nacor e Arão. Arão, que teve por filho Lot, faleceu antes da morte de seu pai e de seus irmãos. Nacor casou-se com Melca e Abrão com Sarai.

Os habitantes de Ur eram idólatras e adoravam toda fonte de calor simbolizada pelo sol, astros e, sobretudo pelo fogo. Talvez tenha sido por isso que Deus ordenou que Abrão de lá saísse com sua família, para que sua fé não corresse risco.

Deus não escolhe Abraão por nenhum mérito precedente, nem por ele ser um bom homem. Deus sempre cumpre sua palavra e busca o homem em situação em que este se encontra. Aceita-o em sua situação de pecado e vai ao seu encontro.

É aqui que começa propriamente a vida do patriarca. Se Deus não tivesse intervindo em sua vida de maneira especial, Abrão seria mais um dos milhares de milhões de cadáveres esquecidos no sepulcro do tempo.

Promessa divina: “Farei de ti um grande povo”

Certo dia, o Senhor disse a Abrão: “Sai da tua terra, e da tua parentela, e da casa de teu pai e vem para a terra que eu te mostrar. E eu farei de ti um grande povo, e te abençoarei, e engrandecerei o teu nome, e serás bendito. Abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as nações da Terra” (Gen. 12,1-3).

Antes de indicar para onde deveria ir, Deus lhe pediu que saísse (cf. Hb 11,8). O Senhor lhe pedi que deixe tudo, irá para uma terra cujo nome não conhece e não sabe com certeza onde encontrá-la. Seu futuro se torna incerto. Terá que romper com o seu passado pagão, esquecer a segurança conseguida na casa de seu pai. Pede-se-lhe que confie absolutamente. Deus se responsabilizou por sua vida, e esta corre por conta dele. Deus por ser Deus lhe pede tudo. Deus é exigente, mas, em compensação, deixa entrever uma grande recompensa (cf. 15,12; 12,2).

A promessa feita a Abraão orienta-se essencialmente ao futuro e supõe um plano de salvação, oculto por ora na mente de Deus. Transparece, porém, já claramente que essa salvação se estenderá a todos os povos. Essa ordem tem duas partes: 1ª “Sai de tua terra...”. É a renúncia a tudo o que o homem tem de mais caro na terra: pátria, parentes, casa paterna. Deus arranca assim violentamente a todas suas antigas relações e ao perigo de idolatria, aquele de quem Ele quer se servir para fundar uma raça nova e santa. 2ª “e vem para a terra...”. Terra que uma revelação ulterior deverá determinar. Note-se que Abrão tinha 75 anos quando Deus lhe fez essa revelação!

A escolha no plano de Deus é para uma missão. Embora seja pessoal, tem alcance comunitário: é maus um serviço que um privilégio (cf. 12,3; 22,18).
Abrão obedece. Rompe com o passado para aventurar-se num futuro onde tudo parece ir contra ele. A fé ilumina sua travessia, enquanto se encaminha a um ponto tão incerto como desconhecido. Somente o sustenta Deus, que o chamou e lhe fez uma promessa. Abrão deu esse passo na fé (cf. Hb 11,9s).

A fé é uma resposta de uma eleição particular de Deus, daí deu-se o nascimento de um novo povo. Ele responde a Deus um grande ato de fé. Teve uma experiência íntima, indescritível e pessoal de seu Deus que o chamava para fazê-lo pai de um grande povo. A primeira parte da promessa, ser pai de uma numerosa posteridade.
Deus toma a iniciativa. É sempre Ele o primeiro, porque Ele é o primeiro a se interessar por nosso destino: sem dúvida mais importante para Ele do que para nós mesmos.

A longa peregrinação do Patriarca

Começou então para o futuro patriarca uma longa peregrinação: “Abrão passava verdadeiramente sobre a Terra como um viajante. A tenda que havia plantado na véspera, ele a dobrava no dia seguinte, como um exilado que não tem domicílio permanente, e procura sua pátria. Dos campos de Sichem, desceu rumo ao sul da Palestina, e, logo, mesmo para o Egito por causa da fome que desolava o país de Canaã” (cf. 12,9s).

Voltando do Egito, Abrão fixou-se perto de Betel e “era muito rico em ouro e prata” (Gen. 13, 2). Ora, como seus rebanhos e os de Lot haviam se multiplicado muito, e não havia pastagens suficientes para eles, Abrão propôs a Lot que se separassem, e generosamente deixou ao sobrinho que escolhesse a região para estabelecer-se. Lot fixou-se nas férteis pastagens da região chamada Pentápolis -- formada pelas cidades de Sodoma, Gomorra, Adama, Seboim e Segor – a qual, antes do castigo do Senhor, “era toda regada de água, como o paraíso do Senhor” (Gen. 13, 10). Abrão foi mais para o Ocidente, habitando o vale de Canaã.

Novamente o Senhor falou a Abrão: “Levanta teus olhos, e olha .... toda a terra que vês, eu a darei para sempre a ti e à tua posteridade. E multiplicarei tua descendência como o pó da terra. .... Levanta-te, e percorre o país em todo o seu comprimento; porque eu to hei de dar” (Id. ib., 14-17). Levantando sua tenda, ele foi fixar-se no vale de Mambré e ali edificou um altar ao Senhor.

Essa terra será uma terra santa. A terra é uma promessa que se realizará no futuro. Tudo tem seu momento no plano dce Deus. O minuto de Deus não é o tempo do homem, mas sem dúvida é sempre o melhor e mais oportuno. Passaram-se dez anos desde o primeiro chamamento. Abrão começa a sentir a angústia do tempo que transcorre irreversivelmente. A tensão foi aumentando em sua alma a explodiu numa desesperada pergunta, que é também uma censura sutil (cf. 15,2s).

Origem dos Ismaelitas

Abrão deve esperar e pôr sua confiança somente em Deus. Esperar e confiar é a primeira coisa que Deus sempre pede.

Mas Sarai é estéril, e Abrão já esta com 85 anos. Daí segue o costume, Sarai concede uma escrava a seu esposo, e o filho dessa união lhe pertence legalmente. Será que agora Deus se lembrou da sua promessa? Parece que Deus os ouviu. A criança recém-nascida traz o nome de Yisma-el: Ismael “Deus escutou” (cf. Gn 16).

Deus logo lhes revela que Ismael não é o filho da promessa. Os planos divinos não se levam a cabo mediante artifícios humanos. Os planos de Deus são diferentes dos planos dos homens. As coisas não se realizam quando o homem quer mas quando Deus quer. Não como o homem quer, mas como Deus quer.

Nova promessa, mudança de nome de Abrão para Abraão

E Deus falou mais uma vez a Abrão, quando este tinha 99 anos: “Anda em minha presença e sê perfeito. E eu farei minha aliança entre Mim e ti, e multiplicar-te-ei extraordinariamente. .... Tu serás pai de muitas gentes. E não mais serás chamado com o nome de Abrão, mas chamar-te-ás Abraão, porque te destinei para pai de muitas gentes. Eu te farei crescer (na tua posteridade) extraordinariamente, e far-te-ei chefe das nações, e de ti sairão reis. ... Darei a ti e à tua posteridade a terra da tua peregrinação, toda a terra de Canaã, em possessão eterna, e serei o teu Deus” (Id. 17, 1-8).

Dito isto, o Senhor acrescentou que a circuncisão -- prefigurando o batismo -- seria o “pacto marcado na vossa carne para (sinal de) aliança eterna” entre Deus e seu povo. Além disso, Sarai (que significava “Princesa”) deveria doravante ser chamada Sara (rainha de uma nação, mãe), e o Senhor a abençoaria com um filho que “será chefe de nações e dele sairão reis”.

Em sua simplicidade, Abraão pensou: “É possível que a um homem de cem anos nasça um filho? E que Sara dê à luz aos noventa?” (cf. 17,17). E disse a Deus: “Oxalá Ismael viva em tua presença!” (cf 17,18).

Foram 24 anos de longa espera para a realização da promessa, e quando o difícil se tornou impossível, foi precisamente então que Deus confirmou seu desejo de cumprir sua promessa. O poder de Deus se responsabiliza absolutamente por tudo (cf. Gn 18,14). Todavia Sara vê maus sua impotência do que o poder de Deus, e de sua boca brota um sorriso de incredulidade. Mas diante da promessa divina, a incredulidade não o fez vacilar; pelo contrario, sua fé o encheu de fortaleza e deu glória a Deus, persuadido de que poderoso era Deus para cumprir o prometido (cf. Rm 4,18ss).

E no ano seguinte, quando Abraão contava com o número perfeito de 100 anos, aquele para quem nada é impossível repetiu que Sara daria à luz um filho que deveria ser chamado Isaac – Yishaq-el: Deus sorri – (cf. 21,12). Abençoaria também Ismael e fá-lo-ia pai de 12 príncipes, e cabeça de uma grande nação. E repete: “Mas o meu pacto eu o estabelecerei com Isaac, que Sara te dará à luz no próximo ano, nesta mesma época” (cf. 17,19).

Quando Deus faz as coisas tudo caminha normalmente. O desenvolvimento certamente é lento, como todas as coisas de Deus, mas leva ao mesmo tempo a rubrica da segurança.

Vícios contra a natureza: causa da destruição de Sodoma

Entretanto Deus, vendo que as cidades que formavam a Pentápolis estavam prevaricando gravemente com o vício infame, resolveu destruí-las. E o fez saber a Abraão. E aqui se travou um diálogo admirável entre Deus e Abraão, no qual este manifestou de todos os modos seu desejo de salvar as cidades pecadoras da justa ira divina, por causa daqueles habitantes que não haviam pecado “Perderá tu o justo com o ímpio? Se houver 50 justos na cidade, perecerão todos juntos?” argumenta Abraão (cf. 18, 23-24). O Onipotente respondeu-lhe que, se houvesse 50 justos nas cidades prevaricadoras, por amor deles perdoaria toda a cidade. E assim foi Abraão abaixando a cifra até chegar a 10 justos. E o Senhor concordou que se houvesse 10 justos, por amor deles perdoaria toda a cidade.

Porém, não havia sequer 10 justos em Sodoma: apenas Lot e sua família. Deus, pois, “condenou a uma total ruína as cidades de Sodoma e de Gomorra, reduzindo-as a cinzas, pondo-as, por exemplo, daqueles que venham a viver impiamente; e livrou o justo Lot, oprimido pelas injúrias e pelo viver luxurioso desses infames” (II Ped, 2, 6-7). Dois anjos mandaram Lot e sua família sair da cidade antes de a destruir com as outras. E fizeram chover sobre aquelas cidades enxofre e fogo do céu, não restando delas matéria viva alguma.

Abraão, submisso a Deus, disposto a sacrificar Isaac

Entretanto, cumpriram-se os dias e Sara deu à luz Isaac. Este, como o futuro Jesus Menino, crescia em graça e santidade diante de Deus e dos homens. Mas certo dia Sara viu Ismael, que era 13 anos mais velho do que Isaac, dele debicar. Pediu então a Abraão que expulsasse a escrava e seu filho de sua casa. Ora, Ismael era filho também de Abraão, e este ficou chocado com a proposta da esposa. Mas disse-lhe o Senhor: “Não te pareça áspero tratar assim o menino e a tua escrava. Atende Sara em tudo o que ela te disser, porque de Isaac sairá a descendência que há de ter o teu nome” (Id. 21, 11-12).

Com o nascimento de Isaac, Abraão pensa tranqüilamente que sua vida terminou e que pode ir em paz. Seu futuro esta assegurado naquele seu filho. De repente e surpreendentemente intervêm outra vez a voz de Deus. Nova necessidade divina. Crescendo Isaac, o Altíssimo quis provar a fé de Abraão. E disse-lhe: “Toma Isaac, teu filho único, a quem amas, e vai ao território de Mória, e aí oferece-o em holocausto sobre um dos montes que eu te mostrar” (cf. 22, 2). Estamos diante de uma das páginas mais comovedoras de toda a Bíblia, que nos mostra a heróica fé e a total obediência do pai do povo de Israel. Sem dúvida é o ponto culminante de sua vida espiritual.

Lenta e longa espera cheia de provações e perigos; e agora que Abraão está com 112 anos, Deus volta a pedir tudo. A promessa tinha deixado de ser uma esperança quando se havia tornado realidade com seu filho Isaac. Agora Deus lhe pede a entrega total daquilo que Ele mesmo tinha dado com cumprimento à sua promessa: Isaac. Abraão encontra-se na noite maus escura de seu espírito: o futuro está totalmente fechado, ao passo que o passado parece um pesadelo incompreensível. Mas havia uma esperança Abraão era amigo de Deus (Tg 2,23).

Abraão não hesitou um instante. Chamou Isaac, pôs-lhe aos ombros um feixe de lenha, e, portando uma adaga, dirigiram-se ao monte Moriá o local indicado por Deus e lá ergue um altar ao Senhor (cf. 22,9s).

No alto do monte, preparada a lenha para a fogueira, Abraão pediu a Isaac que se deitasse sobre ela. O adolescente nada replicou, obedecendo fielmente a seu pai. Este, levantando o braço, ia desferir com a adaga o golpe sobre a vítima, quando um anjo do Senhor o chamou pelo nome e disse-lhe da parte do Altíssimo: “Abraão, Abraão: Não estendas a tua mão sobre o menino, e não lhe faças mal algum; agora conheci que temes a Deus e não perdoaste teu filho único por amor de mim” (cf. 22,11-12).

Deus não revelou o segredo de seus planos enquanto Abraão não demonstrou uma entrega total. Deus não nos revelará seus segredos enquanto não tivermos seguido na fé os passos que Ele nos vai pedindo (cf. Hb 11,17.19).

E vendo Abraão perto um carneiro preso a um arbusto pelos chifres, pegou-o e ofereceu-o em holocausto ao Senhor (cf.22,13).

Esse ato heróico de fidelidade ao Primeiro Mandamento – Amar a Deus sobre todas as coisas – mereceu a Abraão que Deus renovasse com ele sua aliança (cf. 22,16-18).
E tendo chegado à sua plenitude, morreu aos 175 anos. Aquele que foi um simples arameu errante, Abrão, porque Deus o chamou para fazê-lo Abraão: pai de um grande povo (cf. 25,7s; Tg 2,23; Eclo 44,19).

Casamento de Isaac com Rebeca: assegurada à descendência como “as estrelas do Céu”

Conta a Sagrada Escritura que “Sara viveu 127 anos, e morreu na cidade de Arbéia, na terra de Canaã. E Abraão veio para a prantear e chorar” (cf. 23,1s). É muito saborosa e cheia de detalhes pitorescos a descrição que a Escritura Santa faz de Abraão para conseguir um sepulcro perpétuo para Sara.

Abraão pensou então no futuro de seu filho, e em dar-lhe uma digna esposa. Confiou a missão ao seu fiel servo Eliezer. Este, com a ajuda divina encontrou Rebeca, filha de Batuel. E as bodas realizaram-se segundo desejo de ambos.

Abraão faleceu “numa ditosa velhice e em avançada idade (175 anos) e cheio de dias; e foi unir-se a seu povo” (Id., 25, 8). Foi enterrado junto a Sara.
“Abraão é herói da vida espiritual pela fé e pela obediência. Simboliza o cristão, estrangeiro na terra, que está a caminho da pátria celestial”

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