quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O ANTIGO TESTAMENTO COMO PALAVRA DO HOMEM

 A tradição cristã considera o Antigo Testamento como “palavra de Deus”.

 Encontramos duas formas principais da palavra de Deus:

a) a palavra do Senhor que se identifica com aliança, utilizada no plural
b) e a palavra do Senhor anunciada pelos profetas, utilizada no singular

 Estas duas maneiras constituem a experiência primordial do povo.

 Os elementos comuns das duas manifestações da “palavra de Deus” é que elas são apresentadas ao povo através de um mediador, de um “profeta”, no sentido mais amplo do termo. Outro aspecto também importante que é comum às duas manifestações citadas: a palavra de Deus chega ao homem na forma e figura de palavra humana”.

 A Palavra da Aliança

Impõe-se aqui algumas distinções:

a) Uma primeira forma de “Palavra de Deus” é de caráter narrativo e se refere brevemente à salvação já realizada (cf. Ex 19,4; Js 24,2-13). É uma Palavra cujo “sujeito é Deus”, como agente principal da história; cujo conteúdo é a salvação e cujo objeto é o povo: uma palavra divina, que explica as ações de Deus como ações salvíficas; é revelação de Deus, que desvenda o sentido da história. A palavra de Deus implica uma relação radical com o agir de Deus na história.

b) Uma segunda “palavra” é usada geralmente no plural como “palavras do Senhor”: são os mandamentos que Deus dá ao seu povo (cf. Ex 20,1). Na sua forma primitiva, trata-se de dez mandamentos apodíticos, palavras que encarnam e transmitem a vontade de Deus. Esta enérgica vontade divina cria uma comunhão de homens livres um estatuto religioso (cf. Ex 34,28; Dt 4,13). Estas palavras são expressão de uma vontade soberana, apresentam-se como uma permanente exigência religiosa e regulam a vida toda do povo: primeiro de modo geral, depois incorporando a si determinadas prescrições e adaptando-as à própria dinâmica interna. São palavras eficazes, que criam uma ordem, entrosando-se com a liberdade humana para concretizarem esta mesma ordem. Por estas palavras imperativas Deus se manifesta como Senhor, o povo súdito e a liberdade como responsabilidade, isto é, estas palavras revelam Deus e o homem diante de Deus.

c) Uma terceiro tipo da “palavra” são bênçãos e as maldições: elas introduzem o conceito de “prêmio e castigo” em uma estrutura religiosa. Os bens e as alegrias da vida se tornam sinal de “benção”, enquanto o infortúnio e o sofrimento transformam o novo ordenamento salvífico em “maldição” (cf. Dt 30,1; 4,30). Tais “palavras” são condicionadas pela obediência ou desobediência do povo; são eficazes na qualidade de palavras pronunciadas pelo próprio Deus; a sua eficácia dialética não procede do jogo da liberdade em si mesma, mas do fato de ser anexada à aliança por Deus.

d) As três espécie de “palavra” – exposição histórica, mandamentos, bênçãos e maldiçoes – formam uma unidade que é a Aliança (cf. Ex 34,28; Dt 28,69). Como estas palavras são proferidas na “Aliança”, elas criam uma instituição. Uma vez que essa palavra é pronunciada, têm um valor eterno; o seu caráter mais geral exige, contudo, pela sua natureza, um desenvolvimento ulterior e uma adaptação a novas situações. Note-se ainda que a tríplice palavra institucional é uma palavra litúrgica: endereçada a uma assembléia em formação, repetida e atualizada no culto (cf. Ex 19,17; Dt 31,10s; Js 24,1).

 A palavra profética

As palavras proféticas têm algumas características: “Assim fala o Senhor”, “A palavra do Senhor foi dirigida a...”, “Ouvi a palavra do Senhor”, “Oráculo do Senhor” etc.
A palavra profética em geral é mais individual e mais ligada á situação concreta. O profetismo em geral é um elemento carismático na Aliança (cf. Dt 18).
As “Palavras da Aliança” eram uma unidade formada por três elementos, já as “Palavras proféticas” são múltiplas e independentes.

a) Outro tipo de “palavra profética” é aquela que se ocupa com a história. Ela tem a função teológica de interpretação da história. A palavra profética revela um Deus em ação e descobre o sentido da ação histórica dos homens estimulados por Deus. A palavra profética exprime um acontecimento, transmudando-o em “palavra” e mostra assim, como palavra, o seu significado salvífico. Por meio da palavra profética o acontecimento passado se torna presente à recordação e permite reconhecer nele um significado salvífico. A palavra profética, uma vez proferida e novamente retomada, mantém continuamente acima da história.

b) Freqüentemente o profeta faz referência aos mandamentos da Aliança. O povo se obrigou a estes mandamentos no momento em que começou a existir como povo e nas horas solenes da renovação. Mas diante dessa palavra eles sempre acrescentavam palavra de advertência ou de juízo. A palavra judiciária de Deus, como recriminação ou acusação, se exprime comumente na forma de uma instrução criminal (cf. Is 1; Os 2; Mq 6). A advertência, ao contrario, usa mais a recordação do passado como benefício de Deus e o temor do futuro como castigo. A palavra profética toma a forma pura de mandamento quando o profeta, em nome de Deus e em determinadas situações, exige do povo uma atitude concreta. O plano de Deus se manifesta mais uma vez em uma palavra-mandamento, guiando o curso da história, sem com isto eliminar a liberdade humana, antes apelando para ela.

c) O profeta se torna executor de bênção e de maldição ao proferir a sua palavra de promessa e a sua palavra de ameaça. Na promessa e na ameaça proféticas a “Palavra da Aliança, de bênção e maldição” é atualizada (Dt 30,1) e aplicada a casos específicos com notável fidelidade a fórmulas tradicionais de ameaça. A ameaça e a promessa se apresentam às vezes de modo categórico e definitivo, com todo o poder e com toda a eficácia da palavra de Deus. Mais, às vezes são condicionadas pela liberdade humana.

RESUMO:

A complexidade da palavra de Deus na vida do povo:
*Distinguimos dois grupos de palavras: as da Aliança e as Proféticas, compreendendo três membros paralelos: história, mandamento, bênçao-maldição. A interpretação histórica, mandamento e advertência , promessa e ameaça. Podemos assim vê um primeiro círculo de ampliação: parênese, instrução, escatologia; em seguida, o último círculo de ampliação: livro sagrado, a historiografia, o ensinamento sapiencial; por fim, o livro é comentado com “Escritura”. A experiência imediata se transforma em categoria teológica para interpretar os dois grandes mistérios; o da criação e o da história.

• A palavra do AT transmite um conteúdo: revela Deus e o homem, de uma maneira concreta. Ela é firme e estável porque perdura, se cumpre, fundamenta uma instituição, funda a fé e a confiança. É ativa e eficaz, atuando em cada um e na história.

• Acima de tudo a palavra profética nos permite descobrir algumas tensões de sua natureza: uma estrutura divino-humana, a consciência e a liberdade do homem. A palavra inspirada não exige uma revelação prévia. A palavra tem uma especificação social. A forma escrita conserva a palavra, confere-lhe validade jurídica ou de testemunho.

• Podemos assim dizer o seguinte: a Palavra exige fé e é aceita na fé.

1. Palavra da Aliança, como história: exige recordação e aceitação
2. Palavra como instituição: exige fidelidade
3. Palavra como mandamento: exige cumprimento e obediência

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