domingo, 23 de março de 2008

ATARAM-LHE AS MÃOS PORQUE FAZIAM O BEM

Por que foi o Senhor manietado por seus algozes? Por que impediram eles o
movimento de suas mãos, prendendo-as com duras cordas? Só o ódio ou o temor
poderiam explicar que assim se reduza alguém à imobilidade e à impotência.
Por que odiar assim estas mãos? Por que temê-las?

A mão é uma das partes mais expressivas e mais nobres do corpo humano.
Quando os Pontífices e os pais abençoam, fazem-no com um gesto de mãos.
Quando o homem inocente é perseguido, se vê saturado de dores e apela para a
justiça divina -- seu último amparo contra a maldade humana -- é com as mãos
que amaldiçoa. É com as mãos que pais e filhos, irmãos e esposos, se
acariciam, nos momentos de expansão. Para rezar, o homem junta as mãos ou as
levanta para o céu; quando quer simbolizar o poder, empunha o cetro; quando
quer exprimir força, empunha o gládio; quando fala às multidões, o orador
acentua com as mãos a força do raciocínio com que convence ou a expressão
das palavras com que comove. É com as mãos que o médico ministra o remédio e
o homem caridoso socorre os pobres, anciãos e crianças.

E por isto os homens osculam as mãos que fazem o bem e algemam as que
praticam o mal.

Vossas mãos, Senhor, o que fizeram? Por que foram atadas?

"In principio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum" --
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo, era Deus
(Jo 1, 1). Como descrever vossa transcendente, eterna e inefável majestade,
quando antes de todas as coisas e de todos os séculos vivíeis a vida
supremamente gloriosa e feliz da Santíssima Trindade? São Paulo contemplou
esta vida, e a única coisa que sobre ela conseguiu dizer é que não pode ser
expressa em palavras humanas. Do alto desse trono, viestes com desígnios de
amor para remir os homens. E por isto, com bondade inefável, assumistes
nossa natureza humana. Quisestes ter um corpo humano por amor do homem. É
para fazer o bem, que foram criadas vossas divinas mãos.

Mãos de Mestre, mas também mãos de Pastor

Quem pode dizer, Senhor, a glória que estas mãos -- agora sangrentas e
desfiguradas, e entretanto tão belas e tão dignas desde os primeiros dias de
vossa infância -- deram a Deus, quando sobre elas pousaram os primeiros
ósculos de Nossa Senhora e São José? Quem pode dizer com quanta meiguice
fizeram a Maria Santíssima o primeiro carinho? Com quanta piedade se uniram
pela primeira vez em atitude de prece? E com quanta força, quanta nobreza,
quanta humildade trabalharam na oficina de São José?

Mãos do Filho perfeito, que outra coisa fizeram no lar, senão o bem? Quando
começou vossa vida pública, fostes principalmente o Mestre, que ensinava aos
homens o caminho do Céu. E assim, quando no pugillus grex (Lc 12, 32)
[pequeno rebanho] de vossos preferidos ensináveis a perfeição evangélica, e
vossa voz se levantava e pairava sobre as multidões enlevadas e reverentes,
vossas mãos se moviam apontando a morada celeste ou exprobrando o crime,
acrescentando à palavra todos os imponderáveis com que as enriquece o gesto.
E os Apóstolos e as multidões criam em Vós e vos adoravam, Senhor.

Mãos de Mestre, mas também mãos de Pastor. Não ensináveis apenas, mas
guiáveis. A função de guiar se exerce mais propriamente sobre a vontade; a
de ensinar, mais exatamente sobre a inteligência. E como é sobretudo pelo
amor que se guiam as vontades, vossas divinas mãos tiveram virtudes
misteriosas e sobrenaturais para afagar os pequeninos, acolher os
penitentes, curar os enfermos. Amor tão ardente, tão abundante, tão
comunicativo, que de lá até hoje, sempre que as mãos de um cristão -- e mais
especialmente de um sacerdote -- se movem para afagar os pequeninos,
consolar os penitentes, ministrar remédio aos enfermos, o amor que as anima
não é senão uma centelha deste infinito amor, meu Deus.

Mãos que fustigam o demônio e suas obras

Mas estas mãos tão sobrenaturalmente fortes -- a cujo império vergavam todas
as leis da natureza, a cujo aceno a dor, a morte e a dúvida fugiam -- tinham
ainda outra função a exercer. Não falastes do lobo voraz? Seríeis Pastor, se
o não repelísseis? E se tudo fazíeis com força irresistível, como poderia
alguém não sentir o golpe do látego que empunhásseis?

O lobo, sim... e antes de tudo o demônio. Vossa vida tornou patente que o
demônio não é um ente de ficção ou quase tanto, um ser ao qual tão raras
vezes é dado o poder de agir, que praticamente a imensa maioria das coisas
se passa como se ele não existisse. Os homens hipócritas ou de costumes
dissolutos, ostentando vestes de justiça e até do sacerdócio, tudo isto
aparece nos Evangelhos, não só como conseqüência da depravação humana em
virtude do pecado original e da nossa maldade, mas também como obra do
demônio -- ativo, diligente, emboscado ali e acolá, denunciando por vezes
sua presença com espetaculares manifestações de obsessão e de possessão.

Vós expulsáveis o demônio, Senhor, com terrível império. E diante de vossa
palavra grave e dominadora como o trovão, mais nobre e mais solene que um
cântico de Anjo, os espíritos impuros fugiam espavoridos e derrotados. Tão
derrotados e tão espavoridos, que daí por diante tiveram que obedecer a
vossos Apóstolos com docilidade. Por toda a parte onde vossa palavra foi
pregada e aceita pelos homens, a impureza, a revolta e o demônio fugiram
sempre. E só voltaram a estender sobre a humanidade suas asas de sombra e
seu poder de perdição quando o mundo começou a rejeitar vossa Igreja, que é
vosso Corpo Místico. Bastará que os homens correspondam novamente à graça de
Deus, para que o império das potências infernais mais uma vez decaia; e as
trevas, a lascívia, o espírito da revolução, derrotados e impotentes, voltem
para os antros secretos dos quais há séculos saíram.

Mãos que empunham o látego na defesa da Causa de Deus

Vossas divinas mãos não se limitaram a brandir o cajado contra as potências
espirituais e invisíveis que, no dizer de São Paulo, pairam nos ares para
perder os homens; mas atacaram o demônio e o mal em seus agentes tangíveis e
visíveis. Atacastes o mal, antes de tudo considerado em abstrato, e não
houve vício contra o qual não falásseis; mas também o mal em concreto,
enquanto realizado nos homens. Não só nos homens em geral, mas em certas
classes - os fariseus, por exemplo; não só em certas classes, mas em certos
homens concretissimamente considerados. Os vendilhões do templo estão
imortalizados nas páginas do Evangelho, pelo castigo exemplar que sofreram.

Vós, que recomendastes a mansidão até seus últimos extremos, quando
estivessem em jogo somente direitos pessoais; Vós, que quereis que
respondamos voltando a outra face, quando recebermos uma bofetada; Vós no
entanto empregastes uma ardente e santa difamação para desacreditar os
fariseus e empunhastes o látego para pôr em sangue os vendilhões. É que se
tratava, não de direitos meramente humanos, mas da Causa de Deus. E no
serviço de Deus há momentos em que não recriminar, não fustigar, equivale a
trair.

E estas mãos que foram tão suaves para os homens retos como João, o
inocente, e Madalena, a penitente; estas mãos que foram tão terríveis para o
mundo, o demônio e a carne, por que estão aí atadas e postas em carne viva?
Porventura por obra dos inocentes, dos penitentes? Ou por obra dos que delas
receberam merecido castigo, e contra esse castigo diabolicamente se
revoltaram?

Ataram vossas mãos, reduziram ao silêncio vossa voz

Por que tanto ódio? Por que tanto medo, a ponto de terem julgado necessário
atar vossas mãos, reduzir ao silêncio vossa voz, extinguir vossa vida? Seria
porque alguém receasse ser curado ou afagado? Mas quem teme a saúde? Quem
odeia o carinho?

Senhor, para compreender esta monstruosidade, é preciso crer no mal. É
preciso reconhecer que a natureza humana facilmente se revolta contra o
sacrifício; e quando entra no caminho da revolta, não há infâmia nem
desordem de que não seja capaz. É preciso reconhecer que vossa lei impõe
sacrifícios, que é duro ser casto, ser humilde, ser honesto, e em
conseqüência é duro seguir vossa Lei. Vosso jugo é suave, sim; e vosso peso,
leve. Não porém porque não seja amargo renunciar ao que em nós há de animal
e desordenado, mas porque Vós mesmo nos ajudais a fazê-lo.

E quando alguém vos diz não, começa a vos odiar, odiando todo o bem, toda a
verdade, toda a perfeição de que sois a própria personificação. E se não vos
tem à mão sob forma visível, para descarregar seu ódio satânico, golpeia a
Igreja, profana a Eucaristia, blasfema, propaga a imoralidade, prega a
revolução.

Na Paixão, os beneficiados fugiram espavoridos

Estais manietado, meu Jesus. E onde estão os coxos, os paralíticos, os cegos
e os mudos que curastes, os mortos que ressuscitastes, os possessos que
libertastes, os pecadores que reerguestes, os justos a quem revelastes a
vida eterna? Por que não vêm eles romper os laços que prendem vossas mãos?

Curioso paradoxo. Vossos inimigos continuam a temer vossas mãos, embora
atadas, e por isto vos matarão. Vossos amigos parecem menos cônscios de
vosso poder. E porque não confiam em Vós, fogem espavoridos diante dos que
vos perseguem.

Por quê? Ainda aí a força do mal se patenteia. Vossos inimigos amam tanto o
mal, que, sob as humilhações das cordas que vos prendem, percebem ainda toda
a força de vosso poder... e tremem! Para estar seguros, querem transformar
em chaga vossa última fibra de carne ainda sã, querem derramar a última gota
de vosso sangue, querem ver-vos exalar o último alento. E ainda assim não
estarão tranqüilos. Morto, ainda incutireis terror. Ser-lhes-á necessário
lacrar vosso sepulcro e cercar de guardas armados o vosso cadáver. Como o
ódio ao bem os torna perspicazes, a ponto de perceberem o que há de
indestrutível em Vós!

E, pelo contrário, os bons não vêem isto com a mesma clareza. Reputam-vos
derrotado, perdido... fogem para salvar a própria pele. Só têm olhos e
ouvidos para pressentir o próprio risco. É que o homem é perspicaz só para
aquilo que ama. E se vê melhor seu risco do que vosso poder, é porque ama
mais sua vida do que vossa glória.

Não fazer concessões, nem se adaptar aos erros do século

Ó, Senhor, quantas vezes vossos adversários tremem diante da Igreja,
enquanto eu, miserável, vendo-a manietada, reputo tudo perdido.

Mas quanta razão tinham vossos inimigos! Ressuscitastes. Não só as cordas e
os cravos de nada valeram, mas nem a laje do sepulcro nem o cárcere da morte
vos puderam reter. Sim, ressuscitastes! Aleluia!

Senhor meu, que lição! Vendo a Igreja perseguida, humilhada, abandonada por
seus filhos, negada pelos costumes pagãos e pela ciência panteísta de hoje,
ameaçada de fora pelos erros do comunismo, e por dentro pelos desatinos dos
que querem pactuar com o demônio, hesito, tremo, julgo tudo perdido.

Senhor, mil vezes não! Vós ressuscitastes por vossa própria força e
reduzistes a nada os vínculos com que vossos adversários pretendiam vos
reter nas sombras da morte.

Vossa Igreja participa dessa força interior, e pode a qualquer momento
destruir todos os obstáculos com que a cercam.

Nossa esperança não está nas concessões nem na adaptação aos erros do
século. Nossa esperança está em Vós, Senhor.

Atendei as súplicas dos justos, que vos imploram por meio de Maria
Santíssima. Enviai, ó Jesus, o vosso Espírito, e renovareis a face da Terra.

(Escrito por: Notícias-Lepanto, Plinio Corrêa de Oliveira).

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